Entrevista a Sue Gerhardt – 2007

Eduard Punset:

Tua mensagem principal é que a melhor forma para tratar as doenças mentais, inclusive a delinquência e a violência na nossa sociedade, é cuidando dos bebês, coisa que não temos feito adequadamente.
Sue Gerhardt:
Minha mensagem principal é que temos que cuidar dos bebês, e é aí que encontramos a verdadeira dificuldade, porque de alguma maneira não conseguimos dar suficiente importância aos bebês, falamos das crianças e muitos falam das crianças pequenas, mas quase nunca falamos dos bebês.
E a primeira infância é em realidade a base da saúde mental.
Eduard Punset:
Porque você diz que os primeiros anos são tão importantes?
Sue Gerhardt:

Até os dois ou três anos, é quando se desenvolvem muitos sistemas importantíssimos no cérebro, especialmente os que usamos para administrar nossa vida emocional: a resposta ao stress, por exemplo.
Esses aspectos de desenvolvimento cerebral tão importantes acontecem depois do nascimento, não se nasce com eles, tampouco são automáticos, porque dependem das experiencias que vive o bebê com seus cuidadores.
Naturalmente, a infância não explica tudo, porque o cérebro continua desenvolvendo ao longo da vida, mas a primeira infância é o período concentrado no qual o cérebro estabelece conexões a maior velocidade de crescimento que jamais alcançará. Duplica o seu tamanho! Todos os sistemas são mais suscetíveis às influências durante o desenvolvimento, e seu principal desenvolvimento acontece nesse período crucial.

Eduard Punset:
Você afirma no teu magnífico livro “Why Love Matters” que para que um ser humano seja independente, deve ter sido primeiramente um bebé dependente. E esse tema da dependência é o que desconhecemos. É engraçado, mas vejo, inclusive na minha família, ou nas famílias de amigos, situações nas que o bebê começa a chorar, e a avó, a mãe ou a tia reagem de maneira diferente. Uma pode sair correndo até o bebê para que deixe de chorar, a outra talvez diga: “deixa chorar um pouco, assim aprenderá disciplina”, e a outra dirá: “Não! É melhor chorar até que se canse”. Sabemos alguma coisa, realmente? Tenho a impressão de que não estamos aprendendo nada a respeito…
Sue Gerhardt:
O cuidado dos bebês não é uma ciência exata, depende de cada criança e do que cada criança pode tolerar. O importante é que o bebê não se estresse demais. Se o bebê não se estressa, ele ficará bem, independente das maneiras que o cuidem. O problema é que se esse processo continua por muito tempo, ou se torna crônico por semanas ou meses, pode ter efeitos muito negativos, especialmente para os bebês. Porque os bebês não sabem lidar com um stress excessivo. Não podem se livrar do seu próprio cortisol, como nós os adultos, que temos aprendido a administrar o nosso stress.
Se estamos estressados, ligamos para um amigo, tomamos um chá, um banho quente, o que seja… Temos várias formas de nos acalmar. Mas os bebês dependem dos adultos para isso. E eles se estressam com coisas relativamente pequenas, por exemplo, para um bebê estar longe do seu cuidador por muito tempo, é muito estressante porque a sobrevivência dele depende disso! Um bebê não sabe se vai sobreviver ou não: ele precisa de alguém para cuidar dele.

Eduard Punset: Quanto à organização do trabalho, o papel da mulher na sociedade, a educação… Quando eu penso sobre o grau de ignorância sobre as emoções dos adultos e bebês, me pergunto como nossos ancestrais sobreviveram, ou os nossos pais… Você diz que agora sabemos um pouco mais a respeito, mas que ainda não foi difundido para a sociedade. O que poderíamos fazer para difundi-lo, para mudar o sistema educacional, se é que sabemos exatamente o que fazer?
Sue Gerhardt:
Acho que devemos ajudar a cuidar das crianças na primeira infância, com novas estratégias, pois desde a revolução das mulheres, a situação mudou muito! Na minha clínica chegam mães dizendo que vão deixar seu filho em uma creche (e falamos de um bebê de cinco meses), pois o bebê precisa de vida social. Eles acreditam que necessitam de estimulação social. Mas os bebês não precisam deste tipo de estimulação! Eles precisam de uma atenção personalizada, do cuidado e da sensibilidade de alguém que os conheça bem e possa compreende-los.
Então eu acredito que precisamos repensar a forma como cuidamos de nossos bebês, e eu não quero dizer que temos que retroceder e fazer a mulher ficar em casa! Em vez disso, deveríamos avançar, divulgar mais informações sobre as necessidades dos bebês e pensar em estratégias para ajudar os pais, para que tenham mais apoio, redes comunitárias e instituições que ajudem de maneira realmente ativa.

Eduard Punset: … Mas qual é o próximo passo? E sobre a escola? Primeiramente, é importante que tenham segurança e autoestima necessária para lidar com mundo lá fora… Mas, o que deve conseguir a escola, os anos escolares? “Talvez despertar a curiosidade, incentivar a busca de relacionamentos, de conhecimento?
Sue Gerhardt: 

Na verdade eu não estou qualificada para responder a esta pergunta, porque o que eu estudo bebês, mas o que eu sei é que as crianças têm vínculos afetivos seguros, têm um melhor desempenho na escola, e seu rendimento é superior em todos os aspectos. Eles conseguem mais coisas, e também conseguem relacionar-se melhor com seus companheiros.
Mas tantas coisas já aconteceram quando eles chegam na escola!

Eduard Punset: 
O que devemos fazer com os bebês? A verdade é que não sabemos muito bem o que fazer. O que sim sabemos, a partir de experimentos com ratos e cabras, é que a lamber os filhotes ou acariciá-las lhes dá uma sensação de bem-estar… Mas o que mais? Ou seja, além de lamber os filhotes, qual seria seu conselho para os pais?
Sue Gerhardt:
Meu conselho seria não lamber os bebês! Embora provavelmente não faria mal nenhum…(risos) Mas, meu conselho seria, que o tato está resultando muito importante para o desenvolvimento. Então, temos que segurar o bebê em braços, leva-los conosco para os lugares, toca-los, massagêa-los… Tudo que gere prazer, porque os estudos demostraram que as substâncias bioquímicas relacionadas com o prazer realmente ajudam a desenvolver as funções cerebrais superiores. Portanto, manter contato com os olhos, sorrir, brincar e se divertir com o bebê…
Quanto mais sabermos sobre neurociência, o que se torna mais claro é que existem muitos problemas na sociedade (como: comportamento anti social, ou distúrbios de personalidade ou comportamentais, os pacientes em centros de saúde mental… eu não falo da esquizofrenia, mas distúrbios personalidade, depressão e problemas deste tipo) que são muito, muito relacionados com a infância, por isso, se queremos proteger a sociedade das consequências deste tipo de comportamento…

Eduard Punset: 
Que agora muitas pessoas dizem que são a principal ameaça para o futuro…
Sue Gerhardt: 
Isso mesmo! Supostamente, a depressão tem aumentado dramaticamente, e transtornos de personalidade e comportamento anti social… Mas, sabe que?
Há uma solução para esses problemas:
dar mais atenção à primeira infância, que é quando estas coisas começam.

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2 Comments

  1. Eu comecei a dizer que meu bb será autronauta rsrsr..nem sei porque!!!
    gostei demais daqui!

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  1. dou colo em livre demanda sim | mãederna

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