Sempre tive um certo orgulho da mãe que eu me tornei.
Não um orgulho mesquinho, nem presunçoso de achar que sou perfeita ou mais mãe melhor mãe que qualquer outra… Mas, um orgulho que vem do auto reconhecimento e uma auto valorização pelo quanto eu aprendi, do tanto que eu mudei, dos limites que minha paciência chegou alcançar e por todas as manhãs que consegui contar até 10, engolir o meu mau humor matinal e não explodir.
O meu maior aliado nessa transformação foi ter tido o privilégio de dedicar os 2 primeiros anos e meio, quase integralmente ao João de ter tido tempo para esperar que as coisas aconteçam no seu tempo… e de ter desfrutado sem pressa de cada etapa vivida intensamente por ele e por mim.
Não que essa opção tenha sido sempre um mar de rosas. Óbvio que como todas as escolhas tem o seu dark side, tem pessoas preocupando-se por quando você vai voltar à ativa, tem palpites de todo o tipo te alertando da importância de não ser “só mãe”… Tem as próprias angústias e inquietações sobre quando e como direcionar a vida quando for a hora. Tem cansaço, tem dúvidas e incertezas…
Mas sem dúvida esse privilégio de ter tempo para ser mãe, foi fundamental para ter sido a mãe que eu queria ser nos primeiros anos do filhote.
Quando chegou a hora, comecei a desejar trabalhar desde casa, projetei poder buscar o pequeno na escola e conciliar da melhor maneira possível a maternidade e o trabalho. Também queria que o tempo de trabalho fosse prazeroso, que eu pudesse desfrutar desse outro lado tanto quanto eu desfrutava de ser mãe. E conseguisse equilibrar tudo isso – pelo menos na maior parte do tempo.
Comecei a estudar programação, um tempo depois o João começou no cole dels grans - a pré-escola – e ficava uma boa parte do dia na escola, mais ou menos na mesma época que surgiram os meus primeiros trabalhos como programadora.
Depois vieram mais cursos e outros trabalhos, e assumi mais horas no bar, e a casa, a roupa, a compra… E outros cursos, e o Minha Mãe que Disse e outros novos projetos… E o tempo foi ficando escasso…
E o tempo passa rápido quando não temos tempo para contemplação!
E me vi com o desejo realizado de trabalhar no que eu gosto, desde casa, podendo buscar o pequeno na escola… Mas sem conseguir o equilíbrio e sabedoria necessária para priorizar… E muitas vezes caindo na armadilha de justificar o pouco tempo dedicado ao pequeno com um “depois que acabar x, y e z eu compenso”. E cada dia mais cansada e estressada…
Acho que foi mais ou menos por aqui que me perdi no meio do caminho…
E no meio do caminho tinha um mioma, e por consequência hemorragias, uma cirurgia sem sucesso, mais hemorragias, exames… E uma ligação do médico avisando que era preciso ir urgente ao hospital fazer uma transfusão de sangue, porque eu estava com anemia severa e números tão baixos, mas tão baixos de hemoglobina, que por pouco, muito pouco não tive graves consequências.
Passei esse dia no hospital, e a noite…
E nessas duas ultimas semanas que tento tomar a vida com calma, não consigo evitar de pensar quantos sinais eu fingi não ver, do meu corpo avisando que alguma coisa realmente não ia bem…
Quando a vida te da uma chacoalhada dessas é inevitável não voltar ao começo da história e tentar encontrar o lugar exato em que as escolhas foram equivocadas e me fizeram desviar do caminho.
E me vi, eu e minha síndrome de mulher maravilha, assumindo mais coisas do que podia assumir, tentando dar conta de tudo, tentando manter a casa arrumada e alguma roupa limpa na guarda roupa, tentando provar pra mim mesma que posso fazer sozinha… tentando aguentar 5 horas em pé, pra cima e pra baixo, tentando não desmaiar na rua…
Me vi angustiada em não conseguir acabar as coisas no tempo e ver tudo se acumular, me vi sem forças nem animo e sem iniciativa de questionar os médicos e de realmente me colocar como prioridade.
Me vi dedicando tempo e energia a coisas sem importâncias, enquanto dizia ao pequeno constantemente que a mamãe não tem tempo agora, que não posso porque estou cansada, que não posso porque me dói a cabeça… que não posso… que não posso…
Talvez tenha sido, justo aí…
A sorte é que às vezes re-descobrimos a tempo e sem grandes consequências o que realmente importa.
Aprendi que é mais complicado ser a pessoa-mãe que eu quero ser, quando a falta de tempo faz com que rever prioridades, tenha que ser um exercício diário e constante…
Mas é possível.
Ontem teve reunião com a professora da escola… Hoje tive controle analítico para a próxima cirurgia…
(e ufa!)
Passei nos dois!