Capítulo 2: Entendendo o processo

BIRRA:

Segundo o Aurélio: 1. Teima, teimosia, obstinação. 2. Amuo, arrufo; zanga…
E segundo o Houaiss: 1. ato ou disposição de insistir obstinadamente em um comportamento ou de não mudar de ideia ou opinião; teima, teimosia. 2. sentimento ou demonstração de aversão ou antipatia, esp. quando renitente e motivado por algum capricho, paixão ou suscetibilidade; implicância, má-vontade, prevenção 3. estado ou disposição de quem tem mau humor, zanga, irritação, aborrecimento etc… 4. desentendimento ou desavença.

 

(obrigada a Anna, Lilata e Cynthia pelas definições)

Se juntamos as definições da palavra birra: “teimosia, mau humor, zanga, má-vontade, implicância, capricho, suscetibilidade….”com a imagem que temos de uma criança “birrenta” (sapateando e gritando no meio do supermercado). O resultado fica tão estereotipado que parece que o objetivo das birras seja sempre o mesmo: provocar, manipular, desafiar e destruir em fração de minutos a nossa reputação de bons pais.

Talvez um bom começo, para aprender a lidar com as “birras” seja mudar o (pré) conceito que temos em relação a elas, porque essa imagem estereotipada (e equivocada), não ajuda em nada no momento da crise.

“Ama-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso.” Lembra?

É preciso rever nossos conceitos!

Compreender que a “birra” não é uma forma de rebeldia e desobediência, ajuda a que sejamos mais flexíveis com eles. É também uma forma de tentar entender o que passa na cabecinha dos pequenos, para poder ajudá-los de uma maneira mais efetiva (com amor e muita paciência) a superar esse “processo de crescimento”.

Para quem lê em catalão, super recomendo o texto: “Prendre amb calma les rebequeries” do psicopedagogo: Miquel Àngel Alabart.
Fiz uma tradução/interpretativa e um pouco resumida, porque o texto é incrível e acho que vale a pena comparti-lo. Me ajudou a entender melhor essa fase e a aprender com aprendizado do meu filho. Espero que gostem:

Uma criança, a partir de 1 ano e meio, ou quando começa a formar uma ideia de si mesmo, começa a provar os limites do seu EU e o resto do mundo. Isso, logicamente choca quase sempre com este “resto do mundo” que na maioria das vezes se compõe de: mãe, pai, irmão, outras crianças, areia do parque, balanço, guloseimas e outros objetos de desejo que nem sempre aceitam ser desejados.

– Eu quero isso que depende de você, mas você não me dá.

É assim que a intrépida criatura, descobre a frustração. E a combinação de frustração, hormônios, nervos, ambiente e outros fatores, faz que, em determinados momentos, esta frustração estale em forma de “birra”.

Mas, porque esses sentimentos afetam tanto, aos pequenos?

Tudo depende, como sempre, de se as necessidades básicas estão cobertas ou não. Não é o mesmo frustrar uma necessidade real do que frustrar um desejo impossível ou não recomendável. É mais fácil que o desejo que expressa (“eu quero a jaqueta amarela”) esconda o real desejo (“necessito sair e tomar um pouco de ar”). E só se estamos realmente conectados com os nossos filhos, podemos compreender, ante uma birra, o que está acontecendo, o que ele sente e o que necessita realmente.

As birras também têm a função de descarregar a tensão que provoca a frustração das situações cotidianas insatisfatórias.

Existe todo um aprendizado a fazer sobre como a realidade nem sempre corresponde aos nossos desejos. E eles têm que passar por esta fase para poder crescer e o único que podemos fazer, é acompanhar nossos filhos nesse caminho.

E quando falamos de acompanhar, nos referimos a demonstrar o quanto o amamos, e que estamos aí, respeitando o seu processo, muitas vezes sem intervir, mas sem abandona-lo.

Porque eles necessitam saber que toda essa mistura de emoções que sentem é válida, que não o censuramos e que sempre o acompanharemos.


Que as birras seja uma reação normal, não quer dizer que seja fácil aceita-las. Normalmente nós (os pais), também estamos bastante estressados e ainda mais temos a tendência a pensar que os pequenos pensam da mesma maneira que nós, ainda que não tenham mais de 2 ou 3 anos. Achamos que eles deveriam entender que existem coisas que simplesmente não podem ser. Mas, como se pode comprovar, não é assim… Quando uma criança de 3 anos está gritando e protestando porque não compramos aquele pirulito com pozinho azul, ela não espera um argumento, e também não quer se acalmar. Isso é o que NÓS queremos. Mas como ela não se acalma, nem com os argumentos, nem com nada, o mais provável é que acabamos ameaçando ou cedendo, para acabar logo com aquela cena. O caso é que nesse momento, estaremos mais tensos e dessa forma não podemos ajuda-la a que se acalme.


O resultado é que a criança comprova assustado que a birra, em princípio espontânea e quase só uma reação física, pode ter algum efeito. Ou porque provoca atenção e reação no adulto, ou porque consegue o que queria. E assim, muitas crianças dessa idade aprendem que, em um momento dado, uma boa birra pode ter efeitos interessantes.

Antes de chegar a esta confusão, acreditamos que vale a pena voltar atrás e observar atentamente ao pequeno, estar atentos ao seu estado de ânimo, da acumulação de frustrações e stress, das necessidades do momento (sono, fome, atenção… e inclusive a necessidade de chorar e gritar). Pode ser que de um momento ao outro estoure uma ensurdecedora birra. E temos que estar atentos ao que ele necessita.

Entender todo esse processo, nos pode ajudar a estar inteiramente presente ante as birras dos nossos filhos e poder ajudá-los. E uma vez acabada poder ensinar outras maneiras de canalizar as emoções.
Talvez explicando, se é possível, como até uma frustração pode ter elementos de esperança. “agora não compramos o chocolate porque você acabou de comer esse doce, mas não se esquece que hoje para jantar vamos comer salada de fruta”. Claro que não era a guloseima que ele queria, mas é que a vida é assim: muitas vezes não é como esperamos, mas pode ser igualmente surpreendente e no final, talvez acabamos rindo.

E se de vez em quando, recordamos esse aprendizado a nós mesmos e o transmitimos aos nossos filhos “por contagio” não deixa de ser uma saudável lição de vida… que acabamos aprendendo depois de muitas birras.

 

**

No Capítulo 3: Dicas práticas de como lidar com as birras. Link aqui

Obrigada pelos comentários no post do Capítulo 1. Adoro quando vocês participam ativamente dando dicas, definindo, contando suas próprias experiencias e enriquecendo o post.

Valeu! Beijos

10 Comments

  1. VejaBlog
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    Parabéns pelo seu Blog!!!

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    Um forte abraço,
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  2. flá, muito legal esse post.pena que eu não leio em catalão, me identifiquei demais com esse trechinho que você postou!
    vou até imprimir e levar para as cuidadoras do cantinho onde caio passa as manhãs!
    aguardo as dicas práticas, porque, apesar do Caio ainda não ter entrado de cabeça nessa fase, pelo jeito ela começa por volta dessa idade que ele tá, né…
    beijo grande
    tha
    (ps. esta semana é que viajo, tô com um friozinho na barriga…)

  3. Flavio,
    os húngaros abraçam e agradam seus filhos quando estão no momento “birra”. E sabe que funciona muito bem, pois é um momento de estresse que precisa ser compreendido e não repreendido. Haja sangue frio e paciência!
    Boa sorte!!!
    é apenas mais uma fase…
    beijos

  4. Fla, excelente post. Estou enfrentando essa fase há pelo menos seis meses e admito que não é fácil. Como eu disse no post anterior, a receita que melhor funciona aqui em casa é paciência (claro) e criatividade para desviar o foco antes que a criança esqueça o motivo da birra e se estenda demais.

  5. ah, esqueci…parabéns pela seleçao da veja!

  6. Nossa… Arthur já faz uma birrinha, principalmente quando vai pro trocador. É deitá-lo ali pra casa desabar! Eu converso, tento distraí-lo com o painel na parede, até colocar virado do lado contrário, eu já fiz! Algumas vezes funciona, outras não – aí, levanto a voz e pergunto se ele está vendo alguém nervoso ali, além dele. Ele para e fica me olhando, com atenção. Enquanto argumento, dizendo que bebês são felizes e não precisam ficar nervosos,vou fazendo a “toillete”, conversando e cuidando, até ficar tudo pronto. Aí já o coloco de pé e ele vai conversar com os “amiguinhos” no painel, totalmente esquecido do estresse de minutos atrás… mas olha, é preciso paciência, viu…ehehehehe
    Beijos!

  7. Que ótimo, Flá, já que toda criança faz birra (e esta fase dura um bom tempo) nada mais útil que entender, ver a melhor forma de agir e compartilhar esta informação com as mães. Parabéns pela iniciativa!!
    Beijos

  8. Parabéns pelo seu blog!
    E parabéns por estar entre os melhores!

    Muito legal o texto!
    Como já disse anteriormente, Enzo está nessa fase, só que ele atua de maneira light, nao chega a pegar tao pesado!
    Eu tento sempre ter paciência e dar muitoooo amor ao meu pequeno…
    Tudo que o texto diz, só vem confirmar o que acredito, que a grande “vila” da fase de birras é a comunicaçao, ou a falta dela… nao compreendemos 100% o que eles dizem, porque eles ainda nao conseguem expressar tudo que sentem, e no meio da confusao vem a explosao!
    Beijocas

  9. Dri

    Oi Flávia,

    Parabéns pelo blog, muito legal! A partir de agora serei uma leitora assídua.

    Beijos,

    Dri (Di Grávida)

  10. Oi, Flávia! O passeio foi uma delícia! Apesar de que ele saiu da rotina e virou do avesso, só voltou ao normal na noite de ontem…ehehehe já ouvi falar sim na crise da separação, mas tinha visto que acontecia aos 7 meses, até então, ele não tinha mostrado nenhum “sintoma”… hoje tive a prova cabal de que ele está nessa fase: na hora de sair pro trabalho, tive que sair escondida… na primeira “tentativa” ele abriu o berreiro assim que o deixei com meu pai (nunca tinha feito isso, fiquei entre assustada e de ego cheio…eheheh)
    Beijos, obrigada pela visita!!
    P.S. – respondi seu comment lá por e-mail, mas como meu plugin anda meio louco, trocando as respostas de todo mundo, achei melhor responder aqui também… você pode me confirmar depois se a resposta chegou no e-mail?

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